Pertencer é negociar com o desencaixe
- Tauane Vieira
- há 19 horas
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Há uma pergunta que acompanha a vida inteira, embora mude de roupa conforme os anos passam. Na infância, ela aparece como a necessidade de ser escolhido. Na adolescência, ganha a forma do grupo ao qual desejamos pertencer. Na vida adulta, muitas vezes se esconde atrás do trabalho, dos relacionamentos, da cidade onde vivemos ou das ideias que defendemos.
A pergunta, no entanto, permanece a mesma: onde existe um lugar para mim?
A resposta nunca é simples.
A ideia de pertencimento carregue sempre uma pequena inquietação. O lugar que encontramos nunca é inteiramente nosso.
Clarice Lispector em Pertencer, escreve:
"Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém. Nasci de graça. (...) Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre."
Há algo humano nessa "fome" de que Clarice fala, pois ninguém se constitui sozinho. O sujeito nasce antes de si. Quando chegamos ao mundo, já existe uma trama de desejos, expectativas, histórias familiares e palavras esperando por nós. Herdamos nomes, modos de amar, medos, silêncios e até sonhos que pertenciam a outros.
Nenhum vínculo consegue dizer tudo sobre quem somos:
Amar alguém não dissolve a distância entre duas histórias.
Criar uma família não elimina a solidão de existir.
Encontrar uma comunidade não impede que, em alguns dias, sintamos que caminhamos à margem dela.
Há algo de estrutural nesse desencontro.
Frequentemente tentamos resolver esse mal-estar tornando-nos versões mais aceitáveis de nós mesmos. Aprendemos cedo quais características recebem aplauso e quais despertam desconforto. Sem perceber, começamos a podar gestos, esconder dúvidas, moderar desejos. Fazemos isso porque precisamos dos outros. Nenhum sujeito sobrevive completamente isolado.
O problema começa quando a necessidade de ser aceito exige o desaparecimento de quem somos.
Existe um preço pago por quem vive apenas para corresponder às expectativas. Aos poucos, o reconhecimento recebido deixa de produzir alegria. Afinal, quem está sendo reconhecido? A pessoa que existe ou a personagem que aprendeu a representar? A clínica psicanalítica encontra essa pergunta diariamente.
Entre a submissão e a ruptura existe um terceiro caminho: o da implicação.
Implicar-se é reconhecer aquilo que recebemos sem nos tornarmos prisioneiros da herança. É compreender que nenhuma história começa do zero, mas que toda história pode ganhar novos sentidos.
Aquilo que herdamos não precisa ser repetido exatamente como chegou até nós. Uma herança viva é aquela que suporta transformação. O contrário disso é apenas repetição, e a repetição, quando dispensa o sujeito, perde sua potência de transmitir vida.
Por isso que algumas mudanças provoquem tanto medo. Elas não ameaçam apenas costumes; colocam em questão a imagem que construímos de nós mesmos e dos grupos aos quais acreditamos pertencer.
O pertencimento não é um destino alcançado, mas um trabalho permanente. Há dias em que nos sentimos acompanhados. Em outros, voltamos a experimentar uma solidão difícil de explicar. Nenhuma dessas experiências anula a outra.
Somos feitos dessa alternância.
Precisamos dos vínculos, mas também precisamos conservar um espaço que não pertence a ninguém além de nós. Um território íntimo onde o desejo possa continuar respirando sem a obrigação de justificar cada passo.
É curioso pensar que aquilo que nos torna singulares nunca desaparece completamente, por mais que tentemos adaptá-lo. Sempre existe um resto que não encontra tradução perfeita.
Longe de ser um defeito, esse resto é que nos mantém vivos. Porque ele nos impede de acreditar que somos apenas aquilo que esperam de nós.
E lembra, que pertencer não significa encaixar-se por inteiro. Significa encontrar vínculos capazes de suportar a nossa diferença sem exigir que ela desapareça.
Penso que essa é a forma mais madura de pertencimento: não a promessa de um lugar onde tudo finalmente se ajusta, mas a possibilidade de permanecer, mesmo sabendo que nenhuma casa será grande o suficiente para conter toda a complexidade de existir.



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