Pertencer é negociar com o desencaixe
- Tauane Vieira
- 21 de jul.
- 2 min de leitura
Atualizado: 23 de jul.
Poucas experiências são tão constantes quanto a tentativa de encontrar um lugar no mundo. Na infância, ela aparece no desejo de ser escolhido. Na adolescência, na necessidade de pertencer a um grupo. Na vida adulta, pode se esconder no trabalho, nos relacionamentos ou nas escolhas que fazemos.
No fundo, a pergunta permanece: onde existe um lugar para mim?
A resposta nunca é simples. Todo pertencimento carrega uma inquietação, porque nenhum lugar é capaz de responder inteiramente àquilo que somos. Em Pertencer, Clarice Lispector escreve:
"Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. (...) Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre."
Há algo humano nessa "fome" de que Clarice fala. Ninguém se constitui sozinho. Antes mesmo de nascermos, já existimos no desejo e na linguagem do outro. Herdamos nomes, histórias, modos de amar, medos, silêncios e expectativas que não escolhemos.
Ainda assim, nenhum vínculo consegue dizer tudo sobre quem somos:
Amar alguém não elimina a distância entre duas subjetividades;
Criar uma família não dissolve a solidão própria da existência.
E mesmo entre aqueles que amamos, experimentamos a sensação de estar à margem.
Aprendemos cedo quais traços recebem reconhecimento e quais provocam rejeição. E silenciamos partes de nós para preservar os laços dos quais dependemos.
O problema surge quando o preço da aceitação é o desaparecimento do sujeito.
Na clínica, essa questão aparece com frequência: quem está sendo reconhecido? A pessoa que existe ou a imagem construída para corresponder ao desejo dos outros?
Entre a submissão às expectativas e a ruptura completa com elas, existe um terceiro caminho: o da implicação.
Implicar-se é reconhecer a história que nos constituiu sem permanecer aprisionado a ela. É aceitar que toda herança pode ser transformada. Quando apenas repetimos o que recebemos, a transmissão perde sua vitalidade.
Mas mudanças despertem medo. Elas não colocam em risco apenas hábitos, mas também as identificações que sustentam a ideia de quem somos.
O pertencimento, então, deixa de ser um lugar de chegada e passa a ser um trabalho contínuo. Há momentos em que nos sentimos acolhidos; em outros, a experiência do desamparo retorna. Uma não invalida a outra.
Também precisamos preservar um espaço que não pertença a ninguém além de nós. Um lugar íntimo onde o desejo possa existir sem precisar se justificar o tempo todo. Sempre haverá algo em nós que escapa às definições, aos papéis e às expectativas.
Esse resto que nos mantenha vivos. É ele que impede que nos confundamos inteiramente com os lugares que ocupamos ou com aquilo que esperam de nós.
Pertencer, afinal, não é encaixar-se por completo. É encontrar vínculos que suportem a diferença sem exigir seu apagamento.
Penso que essa seja a forma mais madura de pertencimento: não a promessa de um lugar onde tudo finalmente se ajusta, mas a possibilidade de permanecer, mesmo sabendo que nenhuma lugar será grande o suficiente para conter toda a complexidade de existir.



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