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Moro em mim há anos e tem dias em que pareço visita

  • Foto do escritor: Tauane Vieira
    Tauane Vieira
  • 23 de jul.
  • 1 min de leitura

Texto por Fernando Lino Psicólogo e Psicanalista.


"Há anos carrego esta casa de ossos e respiração, de alma e inquietação, mas certas manhãs o espelho me devolve um inquilino desconfiado, como se eu tivesse alugado o meu próprio corpo para um desconhecido que insiste em usar meus gestos. As mãos que escrevem não parecem minhas, a voz que atende ao telefone tem um timbre que não reconheço e, no entanto, sou eu quem paga o aluguel da memória, quem recolhe os cacos de cada dia, quem varre o chão onde pisam meus passos, por vezes, indecisos.


A estranheza não vem de fora, não é um visitante que bate à porta. É feito um móvel que deslizamos de lugar sem nunca saber onde deveria estar, é a lâmpada que acende num cômodo que julgávamos vazio. Morar em si é um exercício de tradução contínua, porque a cada noite o dicionário reescreve as palavras que usamos para nos chamar, e o nome que nos deram já não cabe na boca que temos hoje. Somos nossa própria paisagem em ruínas, nosso próprio mapa com fronteiras borradas pela umidade do tempo.


E tem dias em que a visita sou eu mesmo, chegando com flores murchas e uma mala de roupas que não me servem, sentando na sala como quem espera o dono da casa que, talvez, tenha saído para nunca mais voltar. Então o silêncio entre os dois é o único idioma possível, e nessa conversa sem palavras descubro que a solidão maior não é estar sozinho, mas ser dois dentro de um só, sem nunca saber qual de nós é o hóspede e qual o morador definitivo."

 
 
 

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© 2035 por Tauane Vieira.

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