top of page

A poesia de existir diante de alguém

  • Foto do escritor: Tauane Vieira
    Tauane Vieira
  • há 17 horas
  • 2 min de leitura

Há encontros que parecem durar apenas algumas horas. Outros permanecem muito depois que as pessoas vão embora. Existe algo que acontece sempre que voltamos a ocupar um lugar diante daqueles que, de alguma maneira, conhecem partes da nossa história.


Levamos conosco uma memória afetiva que não cabe na consciência. Cada rosto desperta algo que, muitas vezes, nem sabemos nomear. Um irmão não é apenas um irmão; é também tudo aquilo que vivemos ao lado dele. Um pai nunca chega sozinho; traz consigo os ecos da infância. Até um velho amigo pode devolver uma versão de nós que acreditávamos ter deixado para trás. Talvez por isso alguns reencontros cansem antes mesmo de começarem.


Existe uma fantasia de que o tempo resolve tudo. Como se os anos fossem capazes de apagar antigos conflitos ou reorganizar afetos mal resolvidos. Mas o inconsciente não funciona como um calendário. Ele não arquiva experiências por ordem de chegada. Às vezes, basta uma pergunta aparentemente inocente para que uma lembrança esquecida volte a respirar.


Aquilo que nos toca quase nunca nasce apenas do presente. Nunca estamos diante apenas da pessoa que temos à frente. Estamos diante das marcas que ela deixou, das expectativas que construímos, das ausências que carregamos e até das fantasias que inventamos sobre ela.


O outro nunca chega sozinho.

Nós também não.


Somos feitos de tempos diferentes convivendo no mesmo instante. Enquanto sorrimos durante uma conversa, alguma parte antiga de nós continua procurando reconhecimento. Outra ainda tenta provar que já não é aquela criança que precisava agradar para ser amada. E existe, quem sabe, uma terceira que apenas deseja descansar dessa tarefa interminável de corresponder ao olhar dos outros.


Talvez crescer tenha menos relação com abandonar essas versões e mais com aprender a conviver com elas.


Por isso, nem todo desconforto merece ser combatido. Alguns precisam apenas ser escutados. Há incômodos que não anunciam um problema; anunciam uma verdade. Eles revelam onde ainda somos frágeis, onde o desejo continua pedindo passagem ou onde insistimos em sustentar personagens que já não nos servem.


Escutar esse movimento exige coragem.


Vivemos numa época que nos convida a administrar imagens. Queremos ser compreendidos, admirados, aceitos. Gastamos muita energia tentando controlar aquilo que os outros pensam sobre nós. Mas existe uma tarefa impossível nessa tentativa: ninguém é dono do olhar alheio.


Cada pessoa nos interpreta a partir da própria história. Porque, se o outro nunca nos vê por inteiro, também nunca consegue esgotar quem somos. Uma parte da nossa existência permanece indomável, silenciosa, em permanente transformação.


É nesse lugar que mora a possibilidade de mudança.


Não construir uma identidade perfeita, mas suportar o fato de que somos sempre inacabados.


E, ainda assim, seguir encontrando pessoas.

Seguir ocupando lugares à mesa.


Seguir oferecendo a própria presença, mesmo sabendo que ela nunca será totalmente compreendida.


Existe uma beleza nessa incompletude.


No fim, talvez os encontros mais importantes não sejam aqueles em que finalmente nos sentimos vistos, mas aqueles em que descobrimos que já não precisamos caber inteiramente no olhar de ninguém para continuar existindo.

 
 
 

Comentários


© 2035 por Tauane Vieira.

bottom of page